Gal, O Musical | Crítica

O espetáculo traz uma imersão na vida da artista, narrando sua trajetória brilhante e indo além, com reflexões sobre o que é ser humana e, principalmente, uma mulher extraordinária.

Contar a história de uma das maiores vozes da MPB é sempre um desafio gigantesco: você precisa atrair o público, encantar àqueles que não conhecem tanto a artista homenageada mas, principalmente, agradar os fãs que cresceram ouvindo sua voz e têm memórias afetivas com cada canção escolhida para representar uma vida inteira de sucessos. A produção de Marília Toledo consegue trazer para Gal, O Musical um acerto nesse sentido. Com uma proposta imersiva, a peça invade o 033 Rooftop em março contando todos os altos e baixos da vida da artista, acompanhando, literalmente, desde a concepção de Maria da Graça até o nascimento e renascimento de Gal Costa.

Um desses grandes acertos de Gal é sua atriz principal, Walerie Gondim, que encarna de fato a cantora num trabalho artístico que vai muito além de atingir as notas e assemelhar-se ao timbre único de Gal Costa. Walerie acompanha todos os momentos da vida da artista, mostra sua fragilidade, timidez, potência e – não dá pra deixar de fora – gogó. Em quase três horas de peça, a atriz raramente deixa o palco e performa boa parte dos 55 números musicais, entregando-se de corpo e alma num trabalho primoroso. 

Além da atriz em destaque, preciso também rasgar um pouco de seda para personagens que dão o tom nos momentos certos. Daniela Cury, como mãe de Gal, e Larissa Carneiro, como sua tia, são o primeiro contato que temos com a força feminina ancestral, tema central da história. Calu Manhães como Maria Bethânia é um deleite, dando vida à figura que desperta em Gal a artista que precisava nascer. Outro destaque necessário é Bruna Pazinato, que faz Lúcia Veríssimo, um dos amores de Gal, com um olhar 43 amadeirado que seduz qualquer um há um quilômetro de distância.

O elenco em geral é um arraso. O ensemble masculino também não deixa a desejar. Gil, Caetano, Guilherme, Jards (Theo Charles, Edu Coutinho, Ivan Parente e Lucas Oliveira) dão muitas vezes um ar mais leve e até cômico, mas sem perder o pé no chão necessário quando a peça entra na década de 60 e aborda um dos períodos mais sombrios da história recente do Brasil, com a ditadura militar.

Embora, para mim, fosse possível resumir tudo em duas horas, os artistas fazem questão de fazer valer cada minuto das três horas de espetáculo. Os mais de 50 números musicais são uma viagem pelo repertório extenso de Gal e da música popular brasileira. Com altos e baixos, tal qual sua biografia, o musical convence bem e entrega explosões de dança e cor, mas brilha também nos momentos mais intimistas, onde parece que estamos vendo a vida íntima da artista como se estivéssemos em sua sala de estar.

Gal, O Musical | Joxa para Glumy Music

Aqui, preciso fazer uma pequena pausa e dar um breve contexto para quem nunca foi à uma apresentação no Rooftop 033. Este local não é um teatro, mas um espaço usado para eventos e, em muitos casos, musicais com propostas imersivas. Já passaram por aqui diversas montagens como Natasha, Pierre e o Grande Cometa de 1812, Zorro, Sweeney Todd, Homem com H, e muitas outras peças. 

O grande desafio de uma proposta imersiva como esta, além da disposição das mesas e conforto do público – muitas vezes negligenciado “em nome da arte”- é fazer a coisa funcionar. Gal funciona, isso não dá pra negar. A peça conta com três espaços cênicos integrados, cada um com um propósito diferente no decorrer da narrativa. Além disso, um pequeno trilho leva um carrinho serpenteando de um lado pro outro em algumas cenas, o que dá um charme bem bacana. O espaço é relativamente pequeno, mas os coreógrafos, cenógrafos e iluminadores fazem dar certo.

Outra coisa que me chamou muito a atenção no decorrer da peça foram os figurinos. O elenco inteiro troca de roupa a cada tantos minutos, o que me fez questionar o tamanho das araras escondidas nas coxias. E figurinos muito bem trabalhados, diga-se de passagem: eles ajudam a contar a passagem do tempo, roupas caricatas mas muito charmosas para mostrar décadas de 60, 70, 80, Londres, Bahia, Rio e por aí vai. Até uma peruca de barba para o Gilberto Gil exilado faz uma bárbara participação. Sobre a peruca de Caetano Veloso, só posso dizer que faz jus ao estilo igualmente terrível que o cantor usava na época.

Gal Costa em “Doces Bárbaros” | Foto/Divulgação

Algo que me deixou intrigado durante toda a história foi o trio que abre a peça. Numa espécie de coro grego, uma coisa meio Fates de Hadestown ou as Diamantes de Hairspray, somos guiados o tempo inteiro por três entidades que igualmente guiam a vida de Gal Costa: Gilgamesh, Inana e Ereshkigal (Marco França, Fernanda Ventura e Badu Morais). Os atores estão ótimos, a participação dá um contexto bacana e a contribuição vocal, especialmente de Badu, é excepcional, mas fiquei pensando: o que tem a ver esse panteão com Gal Costa? A própria peça traz sua ligação com as religiões de Matriz Africana e sua conexão com Mãe Menininha (Denise Fersan), o que é que tem a ver os deuses sumérios? A única explicação que pude encontrar é de que buscaram as poucas divindades com alguma terminação em ‘Gal’ e acharam ótimo que encontraram “Ereshkigal” para preencher esse espaço.

Confusões à parte, acho que é nesse trio meio desconexo que ocorrem as melhores conexões da peça. É através do paralelo com duas forças femininas e uma masculina que somos apresentados a algumas escolhas controversas da vida pessoal e artística de Gal Costa. É através deles também que temos algumas das reflexões mais interessantes da peça, onde se questiona o poder e o lugar dessas forças complementares em nossa vida, cutucando de maneira genial os papéis de gênero e o poder da mulher na sociedade. Além disso, é constante o convite das entidades para que Gal olhe para dentro de si, culminando num dos mais belos momentos da peça onde ela é obrigada a encarar suas sombras e se reerguer a partir daí. 

No fim, a peça encanta. É difícil resumir em um único texto todos os detalhes que possam convencer um leitor a prestigiar Gal, O Musical, mas deixo minha recomendação. Se não pela história da artista, talvez pelos talentos que a interpretam e as vozes que dão vida à esse espetáculo. 

Vale a pena conferir mais um feliz acerto nesta onda de musicais biográficos de artistas brasileiros.

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