Ana Cacimba ilumina o Sesc Pinheiros com ancestralidade, fé e a força de quem chegou para ficar

por: Luis Felipe Moura

Ontem, 13 de maio, o Auditório do Sesc Pinheiros virou terreiro. Embora pequeno em tamanho, o espaço foi suficiente para comportar toda a dimensão espiritual e cultural que Ana Cacimba colocou no palco com a estreia de seu espetáculo Luminosa.

A escolha da data não foi por acaso. O show aconteceu justamente no Dia de Preto Velho e na data que marca a assinatura da Lei Áurea — um momento que Ana fez questão de ressignificar durante a apresentação. Em um dos trechos mais potentes da noite, a cantora comentou sobre a falsa ideia de abolição que ainda atravessa o Brasil, reforçando a importância de seguir lutando por espaços para pessoas pretas, quilombolas e periféricas. O discurso não surgiu como interrupção do espetáculo; ele fazia parte dele.

E isso ficou evidente ao longo de toda a apresentação. O show foi construído como um ritual contemporâneo de celebração à cultura quilombola e ao candomblé, atravessado por música, corpo, espiritualidade e memória.

Fotos por: Luis Felipe Moura para Glumy

O repertório contou com faixas já conhecidas pelo público, como “Ciranda para Janaína”, apresentada em um momento mais intimista, no qual Ana canta e toca asalato — instrumento de percussão de origem africana produzido pela própria cantora — além de músicas do Ato I: Lua, como “Padê Onã”, “Preto Velho” e o medley “Pombagira / Dona da Casa / Maria Mariá”, que celebram entidades e orixás como símbolos de espiritualidade e pertencimento.

A celebração se tornou ainda mais coletiva com as participações de Lucas Pierro, do grupo Big Up, Leo da Bodega e PH Moraes, que subiu ao palco para cantar “Sereia”, último single de Ana lançado em março deste ano.

Foi também durante o show que a artista apresentou parte do universo de Luminosa, projeto dividido em dois atos: Lua, lançado no ano passado, e Sol, que chega às plataformas no próximo dia 21 de maio. Enquanto as músicas de Lua mergulham na ancestralidade, na espiritualidade e nas conexões afro-religiosas, as inéditas de Sol mostraram outra camada da artista — mais íntima, quente e apaixonada. Muitas das canções novas carregam exatamente aquela sensação gostosa de perceber o amor voltando a existir dentro da gente.

O encerramento foi à altura de tudo o que veio antes. Uma grande ciranda tomou conta do espaço, e Ana Cacimba distribuiu flores ao público — gesto que, no candomblé, representa oferenda, gratidão e axé passado de mão em mão. Não havia como sair dali sem entender o que o espetáculo quis dizer desde o início: que essa cultura que o Brasil insiste em subalternizar é, na verdade, o que há de mais luminoso nele.

O projeto completo de Luminosa estará disponível em todas as plataformas de streaming a partir do dia 21 de maio.

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