por Luis Felipe Moura
O Estéreo MIS existe desde 2011 com uma proposta clara: fortalecer a cena musical independente nacional, dar espaço para novas sonoridades e guardar tudo isso no acervo do Museu da Imagem e do Som de São Paulo. Desde 2019, os shows passaram a ser acompanhados de uma entrevista gravada em estúdio — o que significa que cada apresentação do projeto não é só um show, é um registro. É um documento. E na última sexta-feira, o Auditório do MIS recebeu uma noite que merecia ser documentada.
Ale Sater, vocalista e baixista do Terno Rei, chegou ao palco do Estéreo MIS numa das fases mais bonitas da sua vida. Há duas semanas, o músico paulistano anunciou que vai ser pai pela primeira vez. E isso explica não apenas parte do brilho que havia no palco mas também muito do que está no Tudo Tão Certo — álbum de estreia solo lançado em setembro de 2024 pela Balaclava Records, produzido por Gustavo Schirmer e gravado em Curitiba ao longo de quase cinco meses.

O disco é confessional do começo ao fim. Ale sempre manteve esse traço na escrita do Terno Rei, mas em Tudo Tão Certo ele se expõe de um jeito diferente — sem o arranjo coletivo de uma banda pra dividir o peso. Em “Ontem”, o primeiro single do álbum, a passagem do tempo e a espera aparecem com camadas de piano, sintetizadores e um solo de sax que é o momento mais expansivo de todo o projeto. E em “Desvencilhar”, gravada na fita, ele se inspirou em “These Days” da Nico para criar algo que parece ter sido tirado de uma gaveta antiga — guitarra velha, cordas, voz e mellotron.


Ao vivo, esse repertório ganhou uma dimensão ainda mais íntima. O formato do Estéreo MIS é completamente diferente do que se vê num show do Terno Rei — e Ale pareceu completamente à vontade nessa outra escala. A plateia, animada desde o início, cantou junto em vários momentos, numa cumplicidade que só acontece quando um público conhece bem o que vai ouvir antes mesmo de chegar. O show estava sendo gravado para integrar o acervo do MIS — e faz sentido. É o tipo de registro que envelhece bem.



Vale lembrar que a relação de Ale com esse universo afetivo que permeia Tudo Tão Certo não é apenas lírica. Em 2024, sua esposa contracenou com ele no clipe de “Quero Estar”, uma das faixas do álbum — o que torna ainda mais bonito saber que, agora, em 2026, com um filho a caminho, aquele mesmo projeto de estreia que ele disse amar “de um jeito diferente e especial” continua sendo apresentado ao vivo num dos espaços mais simbólicos da cena cultural paulistana.Tudo Tão Certo é um álbum que só tem melhorado com o tempo, e o registro de sexta-feira no Estéreo MIS foi a prova disso.
