Apesar da pouca idade, Blanco já carrega um currículo que muitos artistas levam décadas para construir.
Sua consagração veio ao vencer o tradicional Festival de Sanremo ao lado de Mahmood, um dos artistas queer mais importantes da música italiana contemporânea, com uma canção delicada e emocional que rapidamente se tornou um marco geracional. Ao mesmo tempo que figurava o concurso da canção italiana, fazia feats com artistas do trap como Sfera Ebbasta, Mace, Lazza, entre outros, destacando sua fluidez entre as cenas musicais italianas, em seu principal single do segundo álbum, Blanco faz um ensaio para aquilo que seria uma marca de sua identidade posteriormente com a participação da célebre cantora italiana Mina. No entanto, sua trajetória também é marcada por rupturas.
Em uma participação posterior no próprio Sanremo, o cantor enfrentou problemas técnicos no palco durante sua apresentação. A reação foi tudo menos convencional: em um gesto impulsivo e de espírito quase punk, Blanco acabou destruindo parte da cenografia ao vivo. O episódio gerou forte repercussão negativa na crítica e na mídia italiana, abalando sua imagem e o afastando temporariamente do posto de jovem “queridinho” do país. Essa dualidade entre sensibilidade artística e atitude explosiva é justamente o que torna Blanco uma figura tão magnética. Ele representa um artista que não apenas performa emoções, mas as vive de maneira crua, por vezes indomável.
Ma’: um disco entre o caos e a sensibilidade
Em Ma’, lançado em 3 de abril do ano passado, Blanco aprofunda essa identidade sonora e estética. O álbum se constrói como um mosaico emocional, onde o pop funciona como base, mas é constantemente tensionado por elementos de rock, synthpop e trap. Não há uma tentativa de soar coeso no sentido tradicional, em contraponto, o disco abraça suas contradições.
A produção alterna entre momentos minimalistas e explosões sonoras densas, refletindo um estado mental inquieto, quase ansioso. É um trabalho que parece dialogar diretamente com uma mentalidade jovem contemporânea: imediatista, emocionalmente exposta e ao mesmo tempo cheia de camadas. Liricamente, Blanco continua explorando temas como amor, raiva, identidade e alienação, mas aqui há uma maturidade maior na forma como essas emoções são organizadas. Ma’ não é apenas um conjunto de canções, é um fluxo emocional que oscila entre o íntimo e o caótico.
Algumas faixas ajudam a entender melhor a amplitude do disco
Peggio del diavolo
Uma balada pop dramática que evidencia o lado mais teatral de Blanco. A construção melódica e a intensidade vocal remetem diretamente ao estilo de Gianluca Grignani, especialmente na forma como a emoção é levada ao limite. É uma das faixas mais acessíveis do álbum, mas ainda carregada de densidade.
Ti voglio bene, uomo e Maledetta rabbia
Aqui, Blanco mergulha em um território mais agressivo e eletrônico. Beats pulsantes, sintetizadores cortantes e vocais quase gritados criam um ambiente de tensão constante. São faixas que flertam com o trap e o industrial pop, canalizando uma raiva juvenil que soa visceral e autêntica.
Ricordi (com Elisa)
Uma das canções mais conceituais do disco. A parceria com Elisa adiciona uma camada etérea e melancólica, resultando em um pop obscuro e atmosférico. A faixa se destaca pela sutileza e pelo contraste entre as vozes.
Tanto non rinasco
Um pop rock com forte apelo emocional, que poderia facilmente ser imaginado como um feat com Taylor Swift. A estrutura narrativa e o crescendo emocional lembram o pop anglo-saxão contemporâneo, mas ainda mantêm a identidade crua de Blanco.
O álbum Ma’ reafirma Blanco como um artista que não tem medo de experimentar e expor suas contradições. Ao fundir pop com rock, synthpop e trap, ele cria um som que não apenas acompanha tendências, mas reflete um estado geracional. Mais do que um álbum, Ma’ é um retrato sonoro de uma juventude que vive entre extremos e Blanco, com sua intensidade característica, é um dos seus porta-vozes mais autênticos.
