Quem Inspira Seus Artistas Favoritos? | Blood Orange no Brasil

Blood Orange é uma das múltiplas personas de David Joseph Michael Hynes, que também é conhecido pelo nome artístico Devonté Hynes ou simplesmente Dev Hynes. Talvez iniciar esse texto dessa maneira cause um pouco de estranhamento, mas, é importante ter esse contexto para aprofundar no universo dessa persona que é o artista preferido de muitos artistas preferidos do grande público. Com um currículo de dar inveja, Dev Hynes a mais de duas décadas tem apresentado uma carreira com muita consistência, quer seja pelo seu ritmo de lançamentos, turnês em múltiplos festivais, artistas querendo colaborar com ele ou pela maturação de sua obra.

Britânico de nascença, após uma curta, porém, intensa carreira com sua primeira banda: Test Icicles, o instigou a cruzar o atlântico trocando a Inglaterra por Nova York, é nesse contexto entre hipsters, a comunidade Queer e a comunidade negra local, que o inspiraram a desenvolver uma sonoridade autoral, unindo a leveza às melodias do que há de melhor no synthpop, passando pela agitação obscura do post punk, chegando até a música pop, realizando um resgate sonoro da cena eletrônica negra que ao longo do tempo foi apagada da história. Não é exagero, apontar que Dev Hynes performa em alto nível em diferentes contextos, quer seja compondo e tocando ao vivo com seu projeto Blood Orange, ou como parceiro/produtor/coautor ao lado de artistas como Sky Ferreira, Britney Spears, HAIM, Kylie Minogue, A$AP Rocky entre tantos outros.

Toni Baptiste para Glumy

Responsável pela guinada conceitual na carreira de artistas como Solange Knowles e Carly Rae Jepsen, é nessa interface que podemos ver o modus operandi do artista que compartilha aquilo que mais caracteriza sua obra, fundir-se com a estética de cada artista com o qual colabora. E é justamente nesse contexto de coletividade que pudemos conferir sua apresentação do SideShows do LollaBr que aconteceu no dia 19 de março no Cine Jóia em São Paulo.

Munido de um setlist com seus maiores hits solos e ao lado de uma banda compacta em um jogo colaborativo ímpar, Dev hynes compartilha os vocais com outros dois cantores, em uma dinâmica que ora se apresenta como voz principal, ora como voz de apoio, backing vocal ou até mesmo performando as vozes de seus feats mais importantes. O Setup do Blood Orange é muito versátil e criativo e, embora ele pudesse resolver tudo como DJ ou samples em uma programação eletrônica como um one man band, ele opta pelo mais complexo visando trazer um show orgânico e caloroso, mesclando guitarra, violão, sintetizadores, um cello, em diálogo com uma cozinha sonora muito bem construída com bateria, um musicista de apoio que tocava contrabaixo e teclado, somando a composição de palco o par de vozes.

Embora na maior parte do tempo sua postura no palco tenha sido introspectiva, em vários momentos do show, Dev Hynes interagiu surpreso agradecendo a energia enviada pela audiência brasileira, apresentando um show que o público pode dançar com suas canções indie, se emocionar com as baladas e cantar junto todos os hits cults. Se como citado anteriormente uma das principais características da poética do Dev Hynes é a coletividade, no show do Cine Jóia essa premissa se tornou uma máxima com a interação da plateia, que cantou junto todas as canções. Em alguns momentos se tornou um culto, inclusive nas músicas de seu álbum mais recente Essex Honey, que apresentou uma sonoridade mais soturna, reflexo de seu retorno para Inglaterra para lidar com questões íntimas ligadas ao luto e reminiscência.

Toni Baptiste para Glumy

Ao longo dos 90 minutos de show os fãs puderam cantar músicas da discografia do Blood Orange, como a lindíssima faixa Countryside de seu mais recente disco, Augustine do Freetown Sound de 2016 e seus hits Champagne Coast, You’re Not Good Enough, enquanto o Dev Hynes realizava um rodízio de instrumentos para performar cada camada e textura do som o mais profundamente possível, resultando dessa junção um grande coletivo vocal que entoou cada track em uníssono. É muito interessante acompanhar a trajetória desse artista e ter a oportunidade de ver ao vivo sua apresentação solo, para além do ritmo de um show num mega festival como o Lollapalooza. E com um sideshow que teve seus ingressos esgotados, podemos derivar que além de termos uma demanda curatorial por mais artistas com uma proposta midstream, já que o público parece estar antenado em movimentos para além de tendências ou playlists, podemos considerar que a obra do Dev Hynes e seu Blood Orange teve e tem uma boa recepção no coração dos seus fãs brasileiros.

Autor