Ópera do Malandro | Crítica

Com muito deslumbre, gingado e malandragem, ‘Ópera’ encerra sua passagem por São Paulo em 15 de Março, numa produção que deixa sua marca entre as montagens deste espetáculo.

O diretor Jorge Farjalla traz uma abordagem diferente para o musical de 1978, mas não se afasta do clássico de Chico Buarque, honrando o brilhantismo original. Manter-se no nível de uma lista tão ilustre não é fácil, já que a assinatura do texto contém nomes como Marieta Severo, Luiz Antonio Martinez Correa, Rita Murtinho, Maurício Sette e Carlos Gregório. Com muito deslumbre, gingado e malandragem, Ópera encerra sua passagem por São Paulo em 15 de Março, numa produção que deixa sua marca entre as montagens deste espetáculo

Um bom número de abertura, para mim, é o que dá o tom de um bom musical, não importa a origem ou o gênero da peça. A Família Addams, Brenda Lee e o Palácio das Princesas, Hadestown e A Bela e a Fera, são exemplos do que considero excelentes aberturas, onde nas primeiras notas, os pêlos se arrepiam e você sabe porquê está sentado na poltrona. Na atual versão de ‘Ópera do Malandro’, isso não é diferente. Um personagem trôpego vindo interagir com a plateia antes do início, referências às religiões de matriz africana e uma explosão musical com um medley modernizado (com direito até a Anitta), diz a que veio: irreverência, conexão com as raízes da malandragem e potência que tira o fôlego logo nos primeiros minutos. 

O figurino é um espetáculo à parte. Se podemos falar de um acerto irrefutável dessa montagem, as fantasias que vestem os personagens são brilhantes, marcantes, cheias de camadas e texturas que deslumbram até dos setores mais afastados do palco. A maquiagem, remetendo à palhaçaria, traz um ar não só divertido aos personagens dessa farsa, mas adiciona uma camada interessante onde revela em tinta que até o mais certinho dos personagens ainda é um grande malandro. A cenografia e iluminação aparentemente simples ainda encantam, como quem lê a história de um livro em pop-up e fica ansioso para pular para a próxima página e ver o que há de ser revelado entre os leds e os elementos cênicos que vão surgindo no palco.

Foto: Gatu Filmes via Instagram

Com um elenco afinadíssimo, não apenas musicalmente, há de se destacar a potência geral. Trazendo estrelas conhecidas do grande público e outras (ainda) muito restritas aos fãs de musical, o conjunto da obra agrada quem buscava um blockbuster nacional. Essa potência, porém, acaba se perdendo em certos momentos. Não chego a dizer que a peça deixa a peteca cair, mas entre um número musical e outro, a sensação que fica, por vezes, é que estamos assistindo em câmera lenta a peteca chegar até o outro lado da quadra. Sabemos que virá algo grande em breve, mas até chegar lá…

Um momento ímpar e talvez o mais aguardado, tanto pelos fãs do musical quanto por quem não conhece a peça, foi o número Geni e o Zepelim. Embora se inicie em um desses pontos da peça onde parece que estamos lentamente esperando a bola chegar no gol, a atriz Valéria Barcellos faz um gol de placa. Acompanhada de um elenco que só faz enaltecer seu talento nesta hora, a Geni de Valéria exibe toda a sua força, acompanhando os altos e baixos dessa história-dentro-da-história com emoção que arrepia e faz crer que estamos vendo mesmo a própria Geni da música, materializada no palco. A bandeira trans desfraldada em cena no meio da música joga a realidade na nossa cara e mostra o quão atual é a Ópera do Malandro. A bandeira, cravejada de balas, aliás, é erguida e balançada em determinados momentos para um teatro em completo silêncio, entre uma nota e outra de Valéria, onde os espectadores paralisados só emitem sons de fungadas emocionadas e assistem ao restante do número através de lágrimas, esperando o momento de irromper em merecidos aplausos, muitas vezes, eu soube, entregues de pé. 

Depois de assistir à peça duas vezes, me peguei cantando e ouvindo versões mil das músicas, gravadas e regravadas por diversos artistas e elencos, e não comparar acabou sendo difícil. A discrepância da técnica de alguns atores novos no ramo para aqueles mais experientes em musicais é clara, mas de forma que não chega a atrapalhar o andar da peça. Afinal, se alguém não chega lá em uma ou outra nota, podemos dizer que são apenas malandros cantando bêbados, não? No extremo contrário devo destacar as estrelas de musicais que, se não são consideradas consagradas, deveriam: Andressa Massei está um arraso, como sempre, tanto em seus momentos solo quanto em seus duetos deliciosos com Carol Costa, que também se demonstra uma “oponente” à altura da rival na peça. A Fichinha de Ana Luiza, para mim, surpreende demais na forma, mostrando uma versatilidade e disposição da atriz que é um deleite para quem já a assistiu em outras personagens mais “comportadinhas” ao estilo Broadway.

Foto: Gatu Filmes via Instagram

Confesso que a estrela da peça, José Loreto, também me surpreendeu. Para quem só havia conhecido seu talento vocal embebido em auto-tune com Lui Lorenzo,  na novela Vai Na Fé, muito me alegra ver que ele é bem capaz de carregar este papel sem grandes dificuldades, apesar do Malandro, por vezes, me lembrar demais o personagem da novela. Totia Meireles, Ernani Moraes e Amaury Lorenzo também merecem suas flores, afinal carregam parte importante do espetáculo com uma força de vontade que se justifica na entrega primorosa de personagens tão complexos e tão caricatos ao mesmo tempo.

Algo que deve ser pontuado é que um bom musical se faz fora da sala de espetáculos, e o foyer do Teatro Renault me surpreendeu dessa vez. Ativações para tirar fotos se tornaram muito comuns nos últimos anos e as disponíveis em ‘Ópera’, embora de certa forma simples, demonstram terem sido pensadas com carinho que vai além de uma caixa de papelão com a logomarca do patrocinador estrategicamente posicionada acima do ‘KV’ da peça. Outro acerto que coloca a produção acima das recentemente exibidas no mesmo teatro é a distribuição de programas físicos. Desde a invenção do QR Code grudado nas poltronas, parece que foi proibida a entrega (ou mesmo venda, que seja!) dos programas. Prometo que não estou sendo exagerado quando digo que esse elemento é importante para quem vai na peça, pois não só agradam aos colecionadores como divulgam o trabalho anterior dos atores, auxiliam a conhecer melhor uma produção e ainda por cima demonstram o esmero de uma produtora para com seu público; Ópera do Malandro acerta em voltar com a tradição de entregar esse item raro nos dias atuais.

Foto: Adriano Dória via Instagram

Todos têm direito às suas opiniões e ambas críticas positivas e negativas foram feitas à essa montagem, o que para mim só demonstra que o interesse por obras nacionais continua vivo e bem, nem que seja só para falar mal. Em minha sincera opinião, o saldo de Ópera do Malandro, no fim das contas, é positivo. Quem assistiu as outras versões ou tem apego afetivo com interpretações de outros artistas pode estranhar ou preferir suas memórias, mas certamente não deixa de se encantar com tudo que a mais nova montagem tem a oferecer com seu brilho, impacto e vontade de dançar mais uma vez essa história.

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