Bruno Mars com estética retrô, Luísa Sonza voltando à década de 60 com clássicos da Bossa Nova…já percebeu que a indústria musical anda bem nostálgica ultimamente?
A própria Dua Lipa lançou o álbum Future Nostalgia, resgatando gêneros da Disco e Dance Music dos anos 70/80. Também, como não citar Taylor Swift, que descobriu uma demanda na própria base de fãs ao regravar seus materiais antigos. Ainda, há destaque para as turnês de reencontro, que conseguem movimentar imensas multidões ao redor do mundo, como aconteceu com o Oasis em 2025. The Weeknd, Laufey, Olivia Dean… são tantas atrações contemporâneas que bebem da fonte de nomes da velha guarda que dificulta a menção de todos.
Não é como se não existissem artistas que apostam em algo diferente e que pareça inovador. Fato é que estamos em uma crescente de artistas e canções geradas inteiramente por inteligência artificial, o que por si só já é diferente – salvo às críticas e problemáticas acerca do tema. Mesmo assim, essas ferramentas ainda não escapam de buscar referências no passado.
A música parou no tempo, ou só parece?
Primeiro, que fique claro: música não é apenas música. É sentimento, é mexer com as emoções das pessoas. Logo, ouvir uma canção ou falar de uma banda pode desencadear uma série de lembranças. Para os mais velhos, é como ouvir Every Breath You Take e logo se lembrar de escutar a faixa no rádio do carro enquanto passeava com a família. Ou recordar do trauma gerado ao ver o videoclipe de Thriller, de Michael Jackson, pela primeira vez. Aqui, trata-se de uma memória afetiva. Ou, nem precisamos voltar tanto no tempo: basta ver a agitação com a terceira parte do filme-musical Camp Rock para concluirmos que o público certamente se apaixonou pelos protagonistas ao assistir a produção logo no lançamento original, nos anos 2000.
Mas, por que isso acontece? Tudo é recurso mercadológico que envolve o âmbito psicológico para gerar mais familiaridade e conforto emocional nos ouvintes. Afinal, a familiaridade com sons antigos facilita a aproximação e não cria, logo de cara, um estranhamento ou distanciamento, como é suscetível a acontecer com faixas experimentais demais. Consequentemente, a prática de beber da fonte de artistas mais experientes é como pegar uma fórmula já pronta e de sucesso quase garantido. Artistas do mainstream costumam monopolizar paradas musicais como a Billboard Hot 100 e derivadas, deixando pouco espaço para quem tenta inventar demais.
Pegando novamente o exemplo de Bruno Mars, o astro usa e abusa da estética retrô dos anos 60 e 70 e, ainda sim, consegue se destacar tal qual os grupos americanos de funky ou as animadas músicas da Disco Music na era de ouro do gênero. Apesar de algumas críticas, ele conseguiu emplacar o recente single I Just Might no topo da Hot 100 e segue estabelecendo sua relevância na indústria.
Há algum benefício nisso tudo?
Aos mais jovens – e que talvez não tenham se identificado até agora – a nostalgia na indústria musical atual é um prato cheio para quem quer expandir o gosto e ter o primeiro contato com obras lançadas antes mesmo de seu nascimento. Boa parte dos grandes nomes da cena atual não teriam o mesmo repertório sonoro ou oportunidade de experimentação sem antes existir a velha guarda para criar uma base para isso tudo. Chappell Roan não esconde a admiração por Lady Gaga, enquanto The Weeknd já afirmou que ouvir Michael Jackson mudou sua vida. E, mesmo sem essas declarações, não é difícil de pegar as alusões, seja na forma de compor ou em como as melodias soam.
Remake, sample ou falta de risco?
É legal voltar ao passado, mas o problema começa quando isso vira um impeditivo para viver o presente. Temos, por conseguinte, um empobrecimento criativo, uma reciclagem sem fim e um excessivo acervo de fórmulas já batidas. Aqui, não se trata de ser o novo criador da roda, ou seja, não é preciso criar algo completamente fora do tradicional para inovar. A jogada de mestre é conseguir equilibrar o experimental/novo com a nostalgia já conhecida. Então, o resultado é uma reinvenção contextualizada.
É, ainda, aquela frase clichê: olhando para o passado é quando conseguimos pensar no futuro.
