Em linhas gerais: se fosse homem, ela seria maior que eles | Ebony em São Paulo

 Com apresentação lotada em São Paulo, a cantora domina o palco, navega por discografia e apresenta diferentes facetas.

A primeira vez que conversei com a Ebony, rapper brasileira de 25 anos, perguntei a ela sobre as diferentes violências a que ela estava sujeita. Disse ter visto ela contando que a violência de classe a atravessou antes da violência racial – em Queimados, na Baixada Fluminense, onde cresceu, ser preto era o comum, o que adiou seu contato com a com a violência pelo tom de pele. O racismo, ela me contou ali, chegou só quando começou a acessar a zona sul.

“Quando você é negro, você quase sente o que as pessoas pensam quando elas estão olhando pra você”, disse, apontando a contradição que enfrentava naquele momento. Ela foi por muito tempo só a mulher preta que o policial militar chama de escurinha e leva para uma revista padrão aleatória, mas estava começando a ser vista com dualidade em lugares onde não pertence. O celular caro, a elegância ao se vestir, a eloquência ao falar e o peso das ideias passaram a confundir quem a via pronto para retratá-la como só uma neguinha.

Era setembro de 2022, e eu a visitei no apê com vista pro morro onde ela morava. Meu intuito era ouvir sobre o papel da arte e da política em sua vida e visão de mundo. A Ebony já era mais Ebony que Milena, mas seria cada vez mais Ebony nos anos seguintes. Sua fama não se restringiria ao Rio de Janeiro. Suas entrevistas pipocariam assim como seus álbuns, e também os prêmios por eles. Ebony se consolidaria como uma referência no rap feminino. E feminino é uma palavra importante aqui.

Fotos: Ayumi Ranzini
Ebony por Ayumi Ranzini

Se você for fã de rap, deve conhecer a Ebony. São três discos, 300 milhões de streams, aparições em todo canto, do programa do Defante ao lançamento do Pacto Nacional Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio em Brasília, posando ao lado do presidente da República… não é pouca coisa. Se você for fã de rappers, aí tenho certeza que sim. Nesse caso, podemos dizer que o mérito vem de Espero Que Entendam, que causou um frenesi na cena. A artista fala sobre a receptividade ao seu som e à sua presença – também por parte dos artistas, mas especialmente do público e da indústria – e sobre como é ignorada basicamente por ser mulher. Uma diss inteira pros caras que você, fã de rapper, costuma ouvir.

Em linhas gerais: se fosse homem, ela seria maior que eles. Teria o reconhecimento que eles têm. Os fãs puxariam seu saco e defenderiam suas ações. Ouviriam seu som. Não questionariam as letras sexuais e ela seria referência no rap, e não só no rap feminino. Ganharia melhor artista do ano, e não melhor artista revelação do ano – era seu oitavo ano na cena, afinal.

Espero Que Entendam acaba com ela dizendo que puxa o fundamento e fala da bu**tinha. Pode parecer conflitante, em algum lugar, mas é o mesmo conflito da pessoa da zona sul que não sabe como tratá-la quando vê que a neguinha é articulada. O conflito existe não por um incômodo com a ideia de que representação sexual e representatividade sociopolítica podem vir da mesma pessoa, mas sim de que essa combinação seja encarnada pela Baddie.

E poderia ser outra. Poderia ser a jovem Ciça, ou a Nanda Tsunami – apontada por Ebony como a rapper revelação do ano de 2025 –, ou qualquer outra. Qualquer mulher negra com disposição de falar do que é, do que viu, de si, dos seus, de amor, de desejo, de ódio, do que quer e do que não quer incomodaria igualmente o que Ebony chama de Enzo de Condomínio. Não à toa, não tinha um deles no show dela no Sesc Pompéia, em São Paulo, na noite deste sábado (21).

Ebony por Ayumi Ranzini

Setlist de Ebony mistura Terapia, KM2 e diss track

Pela segunda noite seguida, os ingressos esgotados se traduziram na comedoria do Sesc Pompéia abarrotada de fãs da cantora. O espaço continuaria assim ao longo das 23 músicas tocadas no show. O público se apertou próximo ao palco, mas ainda mantendo algum espaço entre si – importante para os pulos quando a artista cantou sua diss, e para dançar quando ela invocou os bailes charme fluminenses dos anos 2000.

O espetáculo foi aberto com o som que dá nome ao último disco da artista, KM2. Imagens de um trem da SuperVia, o transporte que liga a Baixada Fluminense à cidade do Rio de Janeiro, foram projetadas no telão ao fundo do palco enquanto o interlúdio rolava. “A Baixada Fluminense é o local mais violento do estado do Rio de Janeiro. Um estudo mostra que nos últimos quatro anos, mais de cinco mil pessoas foram assassinadas na região”, diz a voz da repórter. O trecho é seguido por um vendedor oferecendo bala, ao som de tiros. É aí que surge Ebony.

A cantora foi acompanhada de suas quatro dançarinas durante a maior parte do espetáculo. Apenas em Parte do Mundo, segunda música do setlist, e em Espero que Entendam, além de interlúdios, ela esteve sozinha no palco. A dança, vale destacar, é parte central da presença de Ebony no palco. Suas dançarinas estiveram em sincronia durante todo o show, e às vezes a Baddie se alinhava a elas e passava a acompanhar a coreografia. Entre rebolados, carões e um flow às vezes impossível de acompanhar, por exatos 60 minutos Ebony dominou o palco em uma performance hipnotizante.

Antes de entrar nas músicas do KM2, que são, afinal, o foco da turnê, Ebony convidou seus fãs para o que chamou de sessão gratuita de Terapia. O público foi à loucura enquanto ela engatou três hits: Megalomaníaca, Terapia e Hentai – esse último, com direito a um speed flow que fez os fãs pararem de cantar junto para apreciar. Depois de um interlúdio, o show retorna com Gin Com Suco de Laranja e bota os casais da plateia para dançar abraçados. Durante todo o show, Ebony transitaria entre diferentes ritmos de condução. O interlúdio após Hentai quebra o ritmo acelerado e reposiciona o público para uma nova leva de sons. Três músicas depois, ela pede licença às dançarinas e prepara seus fãs para Espero Que Entendam, em que foi acompanhada pelo público do começo ao fim. O ritmo se acelera novamente.

Tensionando e distensionando o ritmo, Ebony deu dinamismo ao show que misturou rap pesado de cantar apontando o dedo e músicas gostosas de cantar balançando o corpo – uma boa representação da construção musical da artista. Ela ainda fez uma homenagem ao baile charme de Madureira, cantou KIA duas vezes – uma à capela até o refrão, com coro do público, e uma acompanhada do beat – e encerrou o show com Extraordinária. O público até tentou pedir por mais uma, mas ela não retornou ao palco. Roubando Livros, Triplex, Hong Re e Não Lembro da Minha Infância ficaram de fora do setlist.

“KM2 Deluxe, A Tour” começa em abril e já tem dois shows garantidos na Europa

Ebony retorna a São Paulo em 10 de abril para apresentar seu novo show, “KM2 Deluxe” e dar início à sua turnê multicontinental. Os ingressos para a apresentação em São Paulo, que contará com a participação de Ciça e Nanda Tsunami, já estão disponíveis. De lá, a rapper vai para Campinas, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba. Em agosto, a artista fará duas apresentações na Europa – em Londres, no Reino Unido, em 6 de agosto, e em Dublin, na Irlanda, no dia seguinte.

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